Nicotine

As doenças respiratórias, cardiovasculares e os inúmeros tipos de cânceres causados pelo tabagismo se devem quase em sua totalidade à inalação da fumaça com múltiplas toxicidades após sua combustão. A nicotina, muitas vezes demonizada no passado, nada tem a ver com esses danos. Ademais, quando não associada a essa fumaça, ou seja, como componente de adesivos e gomas de mascar ou consumida por via oral como nos inaladores farmacêuticos e nos cigarros eletrônicos, simplesmente não representa sérios riscos à saúde.

Essa é a avaliação sustentada por inúmeras das mais prestigiadas instituições como o Royal College of Physicians de Londres (RCP), a Agência de Saúde Pública da Inglaterra (PHE), a American Cancer Society (ACS), bem como de acordo com o protocolo do guia para médicos do Reino Unido emitido pelo Instituto Nacional de Saúde e Cuidado de Excelência (NICE), e até mesmo pela própria Organização Mundial da Saúde (OMS).

Também demonizada por seu caráter adictivo ou “viciante”, a dependência à nicotina parece estar relacionada ao resultado da interação química cerebral e o coquetel químico que a acompanha em cada produto que a fornece ao corpo. Por isso não há evidências de dependência quando é consumida em adesivos ou em cigarros eletrônicos. Nos cigarros, há potencializadores à adição como o acetaldeído e alcalóides de tabaco que contribuem para promover a dependência, influenciando o efeito de recompensa e inibindo o metabolismo dos neurotransmissores que liberam dopamina. Por fim, devemos agregar os fatores psicossociais que também promovem a dependência.

Uma maneira de estimar a dependência da nicotina é através da dificuldade de alcançar a abstinência por “vontade própria”. Experimentos médicos controlados mostram um contínuo de variação desta dependência através da gama de produtos que fornecem nicotina. A dependência é alta em fumantes (apenas 10% atingem essa abstinência), é menor em usuários de tabaco oral (abstinência alcançou 20%), enquanto é muito baixa em usuários de goma de mascar, emplastros e inaladores farmacêuticos (quase 100% de abstinência).

Dada a enorme diferença entre a química do vapor e a da fumaça do tabaco, os fatores farmacológicos que aumentam a dependência dos cigarros não estão presentes nos vapores (o vapor contém apenas traços insignificantes de acetaldeído e não contém os alcalóides do tabaco, nem amônia, nem MAOIs). Embora seja um produto relativamente novo, já existem vários estudos que mostram que a dependência de vapers no cigarro eletrônico é menor que a dos fumantes em relação aos cigarros. Além disso, pesquisas com consumidores adultos mostram consistentemente que eles gradualmente tendem a diminuir as concentrações de nicotina em líquidos (80% afirmam usar líquidos com menos de 6 mg / ml e aproximadamente 10-20% chegou a zerar a nicotina).

Dr Roberto Allan Sussman

Para saber mais:

Conteúdo atualizado sobre os riscos à saúde do consumo de nicotina, no relatório da Public Health England – PHE 2018, página 58:

https://www.gov.uk/government/publications/e-cigarettes-and-heated-tobacco-products-evidence-review

McNeill A, Brose LS, Calder R, Bauld L & Robson D (2018). Evidence review of e-cigarettes and heated tobacco products 2018. A report commissioned by Public Health England. London: Public Health England.

PDF, 3.03MB, 243 páginas