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Vaping na Inglaterra: resumo da atualização de evidência, fevereiro 2019

McNeill A, Brose LS, Calder R, Bauld L & Robson D (2019). Vaping in England, an evidence update, February 2019. A report commissioned by Public Health England. London: Public Health England.

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1. Introdução

Este relatório foi solicitado pelo Public Health England com o fim de resumir evidências para suprir políticas e regulações dos cigarros eletrônicos na Inglaterra. O relatório foca nas evidências mais recentes em prevalência e características do uso do cigarro eletrônico entre jovens e adultos na Inglaterra.

O contexto do relatório é de que o hábito de fumar se mantém como líder no que diz respeito a doenças e mortes prematuras que podem ser prevenidas e é uma das maiores causas de desigualdades na saúde. Logo, meios alternativos de entrega de nicotina, tais como cigarros eletrônicos ou e-cigarettes, podeTm exercer um papel importante para aprimorar a saúde pública.

Terminologia

E-cigarette foi um termo regularmente utilizado quando há alguns anos os dispositivos se tornaram disponíveis pela primeira vez. Estes dispositivos se assemelhavam aos cigarros de tabaco mas, desde então, houve uma rápida evolução da tecnologia e dos produtos. E a forma dos produtos hoje tem uma variação enorme.

Essa variedade significa que o termo e-cigarette ou cigarro eletrônico não é mais apropriado. E estamos conscientes das discussões ocorrendo no Reino Unido e internacionalmente para se adotar uma terminologia em comum. Para este relatório, continuaremos a utilizar o termo e-cigarettes (EC) mas esperamos substituir essa terminologia em relatório futuros, assim que um consenso for atingido.

2. Política recente e desenvolvimento de informação/orientação

2.1 Principais alterações

O National Institute for Health and Care Excellence (NICE) publicou um guia para assistentes sociais e agentes de saúde sobre como se ter um debate apropriado sobre EC. A House of Commons Science and Technology Committee publicou um relatório sobre EC que inclui recomendações sobre redução de danos, parar de fumar, diretrizes para EC em casos de saúde mental e também sobre regulamentação.

O Governo respondeu com uma nota oficial que em linhas gerais aceitou as recomendações do Comitê de Ciência e Tecnologia britânico. A nota diz que o governo está firmemente comprometido a realizar mais pesquisas nesta área e que irá proporcionar um adequado sistema regulatório.

Após uma consulta, o Comittee of Advertising Practice (CAP) e o Broadcast Committee of Advertising Practice (BCAP) anunciaram a remoção da proibição total de se realizar alegações de saúde em mídias (que não sejam radio tv) sobre o EC. Atualmente, não é claro como esta nova orientação será aplicada na prática.

O novo Guia do NHS seguiu recomendações sobre riscos de incêndio do nosso Relatório de Evidências anterior e colocou o EC na mesma categoria de celulares neste quesito.

O NHS Long Term Plan For England recomendou uma nova proposta universal para usuários de longo prazo de serviços especializados de saúde mental e de serviços de dificuldade de aprendizagem abandonarem o tabagismo. Isso inclui a opção para que fumantes possam migrar para o EC em ambientes hospitalares. Alguns países alteraram suas políticas sobre o EC restringindo o seu uso ou, no caso do Canadá e da Nova Zelândia, buscaram promover o uso do EC como uma alternativa menos prejudicial em relação ao fumo do tabaco.

O US Food and Drug Administration (FDA) anunciou ações para restringir a venda e a publicidade do EC ao público adolescente.

2.2 Implicações

No geral, a Inglaterra continua a tomar passos progressivos para garantir que o vaping continue sendo uma alternativa acessível e apelativa em relação ao cigarro tradicional.

Como as recomendações da House of Commons Science e do Technology Committee’s são totalmente efetuadas pelo governo, elas possuem maior potencial de expandir esta acessibilidade e apelo, particularmente em situações de tratamento de saúde mental, onde as taxas de uso do cigarro tradicional são altas.

Entretanto, não há ainda EC licenciado medicinalmente na Inglaterra ou em qualquer lugar do mundo. É provável que fumantes sejam atraídos para o vaping caso o EC seja licenciado e disponibilizado desta maneira. Barreiras para a licença e a comercialização de produtos licenciados necessitam de mais consideração e análise.

3. Metodologia

Utilizamos dados de diversas pesquisas realizadas na Grã Bretanha sobre a prevalência do vaping entre jovens e adultos. Também realizamos publicações revisadas por pares destas pesquisas incluindo publicações pendentes, das quais somos coautores.

Revisamos a literatura internacional existente sobre prevalência do vaping publicadas entre 1º de janeiro de 2017 e 5 de novembro de 2018 e examinamos dados coletados por autoridades locais sobre serviços “pare de fumar” pelo NHS Digital entre 1º de abril de 2017 e 30 de junho de 2018.

4. Vaping entre jovens

4.1. Principais descobertas

Na Inglaterra e na Grã Bretanha, como um todo, o ato de experimentar o EC tem aumentado significantemente nos últimos anos. No entanto, o uso rotineiro se mantém baixo, com 1.7% na faixa de 11 a 18 anos (na Grã Bretanha), sendo essa taxa relacionada a dados de uso recorrente semanal em 2018 (essa taxa era de 0.4% na mesma faixa etária e 2.6% entre os jovens de 18 anos).

O vaping continua sendo associado ao ato de fumar. A proporção de jovens que nunca fumaram e que usam o EC pelo menos semanalmente se mantém muito baixo (0.2% na faixa dos 11 aos 18 anos em 2018).

Os dados mais recentes sobre o tabagismo utilizados para medir o progresso dos objetivos do Tobacco Control Plan For England são de 2016. Estes dados indicam que 7% das pessoas de 15 anos fumaram semanalmente em 2016 (8% em 2014). Dados de 2018 ainda não estão disponíveis.

A proporção de pessoas que nunca fumaram mas que experimentaram o vaping está aumentando. Ainda não é clara a dimensão de jovens que teriam fumado se o vaping não estivesse disponível.

A proporção de pessoas entre 13 e 15 anos que nunca fumaram diminuiu drasticamente entre 1998 e 2015, inclusive após a introdução do EC. Nesse período, a atitude dos jovens em relação ao cigarro se tornou mais negativa. Análises posteriores a 2015 estão sendo realizadas.

Estudos fora do Reino Unido sugerem uma conjuntura similar com o aumento da experiência e o uso do EC ao longo do tempo entre os jovens. Existem evidências nos Estados Unidos de que o aumento do uso do vaping ocorre em contrapartida à queda do uso do cigarro tradicional.

4.2. Implicações

Tendências do tabagismo e do vaping devem continuar a ser monitoradas, particularmente à luz das preocupações na América do Norte sobre o tabaco e vaping entre jovens. É necessária vigilância nas origens de compra do EC entre jovens como fora recomendada na nossa edição anterior das Revisões de Evidências. É necessário também mais pesquisas sobre como jovens migram do EC para o cigarro e vice versa.

5. Vaping entre adultos

5.1. Principais descobertas

Dados de diversas pesquisas muito representativas sugerem que a prevalência do vaping entre adultos na Grã Bretanha se mantém estável desde 2015. Em 2017 e 2018, as estimativas para a prevalência eram de:

  • 5.4% a 6.2% para todos os adultos
  • 14.9% a 18.5% para fumantes
  • 0.4% a 0.8% para pessoas que nunca fumaram
  • 10.3% a 11.3% para ex-fumantes (a prevalência do vaping diminui conforme o tempo de abandono dos cigarros aumenta).

A prevalência do tabagismo foi de 13.7% a 17.3% para a população adulta, mas substancialmente mais alta em grupos socioeconômicos de renda mais baixa (por exemplo, 35% das pessoas que vivem em habitações sociais fumavam).

Aproximadamente ⅓ de todos os atuais fumantes nunca experimentaram o EC.

O uso do EC na tentativa de se parar de fumar é similar entre os diferentes grupos socioeconômicos. Entre ex-fumantes de longa data, o uso do EC é maior nas classes socioeconômicas de menor renda. Isso sugere que aqueles de classes socioeconômicas mais altas estão utilizando o EC para parar de fumar e, atingido o objetivo, cessam o uso do EC, enquanto aqueles de grupos menos favorecidos continuam a utilizar o EC.

No geral, não encontramos associações claras entre ex-vapers e vapers atuais sobre a longevidade do uso do EC, os dispositivos/modelos utilizados e status socioeconômico.

Há possíveis associações entre grupos socioeconômicos mais baixos e teor de nicotina mais alto, quantidade de líquido/juice utilizado e uma maior variedade de sabores utilizados.

Com o passar do tempo, a maior dos vapers relata que continuam utilizando o mesmo teor de nicotina (44.7% dos participantes de uma pesquisa, 54.4% de outra) ou reduziram o teor (40.1% e 49.2% respectivamente, das mesmas pesquisas).

Uma pesquisa indica que a maioria dos vapers tende a se prender a um único tipo de sabor (atabacados, frutados e mentolados foram os tipos mais populares).

Abandonar o tabagismo se mantém como o maior motivo para o uso do vaping entre todos os grupos socioeconômicos. Pessoas de grupos mais favorecidos eram possivelmente as mais inclinadas a usar o vape de modo recreativo do que aqueles em grupos menos favorecidos, que podem tender mais a utilizar o vape por motivos financeiros em relação aos mais abastados.

Internacionalmente, os EUA possuem na população adulta prevalências similares aos da Grã Bretanha. Em outros países, onde a informação é disponibilizada, a prevalência é menor.

5.2. Implicações

É necessário mais pesquisas exploratórias no uso do EC em diferentes classes sociais.

Tendências devem ser monitoradas, principalmente em casos de uso entre pessoas que nunca fumaram, entre aqueles que usam o EC e também entre ex-fumantes de longa data.

Dada a importância de se cessar o fumo completamente, fumantes utilizando o EC devem ser aconselhados a parar de fumar o quanto antes. Fumantes devem ser aconselhados a parar de fumar o quanto antes e a explorar todas as opções disponíveis de apoio, incluindo o EC.

6. Uso de e-cigarettes nos serviços “pare de fumar” britânicos

6.1. Principais descobertas

Dados de monitoramento dos serviços “pare de fumar” possuem limitações, mas sugerem que utilizar o EC como tentativa para parar de fumar pode ser útil para pessoas que utilizam estes serviços.

Nestes serviços, a proporção de tentativas de se parar de fumar utilizando o EC ainda é baixa (4.1% de todas as tentativas deste serviço). Há evidências inconclusivas sobre o palpite de que o EC contribuiu para a diminuição do uso destes mesmo serviços.

6.2. Implicações

Combinar o EC (a maior fonte de apoio à cessação do tabagismo utilizada na população como um todo) com os serviços “pare de fumar” (o mais efetivo tipo de apoio) deve ser uma opção recomendada e disponível para todos os fumantes. Essa proposta, delineada em nossa Revisão de Evidências anterior ainda é válida.

Especialistas da área da cessação do tabagismo e profissionais da saúde devem providenciar suporte para fumantes que querem utilizar o EC para ajudá-los a parar de fumar.

Especialistas em cessação do tabagismo e profissionais da saúde que apoiam fumantes a parar de fumar devem receber educação e treinamento sobre o uso do EC em tentativas de se parar de fumar. Treinamento online já é disponibilizado pelo National Centre for Smoking Cessation and Training (NCSCT).

Autoridades locais devem continuar a financiar e prover serviços “pare de fumar” conforme a base de evidências

7. Autores

Ann McNeill (King’s College London)
Leonie S Brose (King’s College London)
Robert Calder (King’s College London)
Linda Bauld (University of Edinburgh, Cancer Research UK)
Debbie Robson (King’s College London)


Tradução: Eduardo Se Jin Ju