É cada vez mais comum encontrar em qualquer rede social informações erradas, equívocos e até a reprodução de antigas falsidades relacionados ao vaping. A internet está repleta de muita boa informação, mas parece ser mais fácil encontrar o inverso. A desinformação, algumas vezes com a pior das intenções, deseduca e desorienta muitas pessoas sobre o uso do vape. Neste post, queremos analisar brevemente um dos mitos mais comuns que seguramente você já viu em algum lugar -ou certamente verá.

Vaporar pode causar a chamada doença do “pulmão de pipoca”?

Há alguns anos (2015) uma das maiores preocupações que circulavam na web eram as relacionadas à possibilidade de se desenvolver um pulmão de pipoca após o uso contínuo do vape. Esta hipótese fraudulenta foi desenvolvida depois que se descobriu que determinadas essencias usadas como ingredientes de alguns juices tinham o composto químico diacetil que após o consumo constante gerava bronquiolite obliterante, que é uma doença pulmonar bastante grave (os brônquios, as vias aéreas menores nos pulmões, ficam inflamados e danificados e as cicatrizes resultantes bloqueiam as vias aéreas.

O diacetil é um produto químico comumente associado à pipoca de microondas e (mais especificamente) à manteiga. Também é freqüentemente encontrado em cervejas e alguns tipos de vinho (como resultado do processo de fermentação), e ocorre naturalmente em algumas frutas. O FDA classifica o diacetil como “geralmente reconhecido como seguro” para ser ingerido, não inalado.

Quimicamente classificado como uma dicetona, o diacetil contém duas ligações duplas de carbono e oxigênio (chamadas grupos “carbonila”), cada uma ligada a dois átomos de carbono. O diacetil é a dicetona mais simples, mas outros produtos químicos, como o acetil propionil, também se enquadram nessa classe. Muitos sabores seríam impossíveis de se obter sem o uso do diacetil. O famoso fabricante de essências The Perfumer’s Apprentice (TPA) explica em seu website que eles não usam diacetil, mas produtos químicos similares – acetil propionil e acetoína: “Da mesma forma que seria difícil assar um biscoito de canela sem canela, seria realmente difícil (mais ou menos impossível) criar um sabor para creme de baunilha sem acetoína ou acetil-propionil (ou diacetil).”

Os primeiros indícios de que o diacetil não seria seguro surgiu nos anos 1980. Mas o que chamou a atenção foi o caso de uma fábrica de pipocas no estado americano do Missouri.
No ano 2000 foram relatados oito casos de bronquiolite obliterante em antigos trabalhadores da fábrica. Um estudo do New England Journal of Medicine relatou esses casos, e outros estudos também os analisaram em conjunto. O Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA (NIOSH) investigou seis fábricas de pipocas para microondas e foram identificados vários casos da doença. Apresentavam sobretudo sintomas graves de diminuição da função pulmonar. Posteriormente se comprovou que em altas concentrações o diacetil danifica o trato respiratório – valendo observar que a absorção de diacetil ao se vaporar é absolutamente inferior.

Em seguida, um estudo apurou que um consumidor frequente de pipocas de microondas desenvolveu um pulmão de pipoca depois de comer dois sacos por dia durante dez anos e inalar os vapores ao abrir o saco. Os principais sintomas identificados foram a tosse seca, falta de ar e chiado no peito que aparecem gradualmente e pioram progressivamente e, em casos graves, podem exigir um transplante de pulmão. Depois de um tempo sem exposição, a tosse cessa. No entanto, a função pulmonar reduzida e a dificuldade para respirar durante qualquer atividade física continuam.

Nos estudos sobre esses trabalhadores, o nível de diacetil dos que trabalhavam diretamente com a mistura química foi de pouco mais de 32 partes por milhão (ppm), e na sala de embalagem pouco mais de abaixo de 2 ppm. Em estudos em fábricas de diacetil, os níveis variaram de cerca de 1 ppm a pouco mais de 110 ppm. Em estudos com animais, concentrações de 200 a 400 ppm foram as mais usadas.

A pesquisa levou o NIOSH (Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional) a estabelecer um nível máximo de diacetil no local de trabalho de 5 ppb (para em média 8 horas de trabalho). Esse nível de exposição levaria a 1 chance em 1.000 de alguém sofrer um comprometimento da função pulmonar como resultado da exposição ao diacetil. E este é considerado um limite bastante estrito.

Em seu estudo de diacetil (e acetil propionil) no líquido para vaping, Dr. Farsalinos calculou a ingestão diária máxima implícita neste limite como 65 μg (microgramas) para diacetil (e 137 μg para acetil propionil). Farsalinos focou em juices com sabor doce, que são mais propensos a conter diacetil. Como resultado, percebeu que cerca de três quartos dos fluidos tinham diacetil. O nível médio no estudo do Dr. Farsalinos foi de 20 μg / ml e, num estudo posterior feito por pesquisadores de Harvard, a média foi de cerca de 9,2 μg por cigarro eletrônico (de sistema fechado, estimado aproximadamente por ml.).

Após esses problemas com o diacetil os fabricantes de essências o trocaram pelo acetil-propionil (ou 2,3-pentanodiona). O qual também foi encontrado em líquidos para vaping em ambos os estudos citados. Sua semelhança com o diacetil significa que ele pode desempenhar muito bem o mesmo papel quando se trata de sabor.

No entanto, sua semelhança com o diacetil também significa que provavelmente também tem efeitos similares nos pulmões. Experimentos em ratos sugeriram que este é provavelmente o caso. O NIOSH sugere que os riscos do diacetil provavelmente sejam compartilhados pela maioria dos outros produtos químicos similares, ainda que não se tenha verificado evidências de doença pulmonar em humanos.

Como evitar o diacetil e o acetil propionil?

Embora consumir moderadamente juices contendo diacetil ou acetil propionil não representem um grande risco, é possível tentar evitá-los: comprar juices (ou essências) de empresas que oferecem resultados de testes de laboratório e estejam sob fiscalização, ou fabricar seus próprios juices. Algumas empresas sérias apresentam farta documentação sobre os seus sabores. Tanto a citada TPA quanto as renomadas Capella e Flavour West não usam diacetil e estão removendo acetil propionil e acetoin de seus sabores (além de fornecerem documentação dos testes). Em alguns países ele foi proibido. Infelizmente, pela ausência de regulamentação e controle, no Brasil não podemos ter certeza absoluta que ele não continua a ser usado, embora acreditamos que não (pelo menos pela maioria dos juicemakers).

A conclusão é simples. Que vaporar causa pulmão de pipoca é uma extravagante generalização que originou uma lenda urbana que teima em se manter viva. Se você quiser continuar vaporando juices com diacetil ou acetil propionil, se não tiver algum problema precedente, provavelmente não ocorrerá nada grave. Obviamente, fumar é muito, muito pior. Contudo, alertamos que o diacetil é um risco genuíno e evitável, portanto você não precisa continuar consumindo juices contendo diacetil apenas porque tudo não passou de uma exagerada lenda urbana. Be safe, vape on.


fonte principal: https://ecigarettereviewed.com/diacetyl-vaping-and-popcorn-lung

Imagem destacada: VaporizersDirect.com.au