Nota pública sobre PLC 37/2013

Um grupo de senadores tem atuado nas últimas semanas para aprovar, a toque de caixa, o PLC nº 37/2013, que reformula o Sistema Nacional de Políticas sobre Drogas (Sisnad). De autoria do então deputado Osmar Terra, atual Ministro da Cidadania, o PLC 37/2013 promove graves retrocessos nas políticas de drogas. Chamamos a atenção para alguns deles:

  • Não inclui a atenção psicossocial extra-hospitalar, ao lado do tratamento ambulatorial, como forma prioritária de tratamento dos dependentes de drogas.
  • Prevê a internação involuntária – Art. 7º § 3º II do PLC – pelo prazo de até 3 meses, sem o devido cuidado para que esse dispositivo não seja utilizado para o recolhimento em massa da população em situação de rua como forma de higienização das grandes cidades.
  • Ademais, diferentemente do previsto na Lei da Reforma Psiquiátrica (Lei 10.216/ 2001), também não atribui à família ou ao responsável legal o poder de determinar o fim da internação involuntária.
  • Incorpora “comunidades terapêuticas acolhedoras” no Sisnad – Art. 7º do PLC. As Comunidades terapêuticas acolhedoras são definidas no projeto como pessoas jurídicas, sem fins lucrativos, que realizam o acolhimento do usuário ou dependente de drogas. A definição, vaga, não faz a necessária exigência de equipe mínima especializada para o complexo atendimento a pessoas que usam drogas, e permite incluir no Sisnad instituições que violam direitos humanos – conforme comprovado pelo Relatório de Inspeção Nacional de Comunidades Terapêuticas – 2018.
  • Dispõe que o planejamento e a execução do projeto terapêutico individual deverão observar, no que couber, o previsto na Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001 (Art. 23-A. § 10). Conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica, a normativa dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas com transtornos mentais e das que fazem uso abusivo de drogas, e redireciona o modelo assistencial em saúde mental, priorizando os serviços extrahospitalares e de base comunitária, em substituição às internações de longa permanência. Deve ser observada na íntegra pelo planejamento e a execução do projeto terapêutico individual, não cabendo reavaliação do que está disposto na Lei.
  • Prevê a oferta de projetos terapêuticos ao usuário/a ou dependente de drogas que visam à abstinência (Art. 26-A. I), sem qualquer menção às outras formas de cuidado e atenção para pessoas que apresentam problemas em decorrência do uso de drogas e que não estão abstinentes, desconsiderando estratégias de redução de danos sociais e à saúde.
  • Não propõe nenhum indicador de avaliação e monitoramento das ações de prevenção, atenção e tratamento de pessoas que usam drogas.
  • Não estabelece o intuito de lucro como elemento constitutivo do tipo penal de tráfico, não define critérios objetivos de diferenciação entre traficantes e usuários, e gera possibilidade de aumento de pena em alguns casos, o que na prática produzirá superlotação dos sistemas carcerário e socioeducativo, com o encarceramento de pessoas portando pequenas quantidades de drogas. De acordo com dados do Infopen (Ministério da Justiça), o número de presos por tráfico saltou de 31.520 (9% do total de pessoas presas), em 2005, para 176.691 (28% do total de pessoas presas), em 2016. Nos presídios femininos, o percentual chega a 62% de mulheres cumprindo pena por tráfico de drogas.
  • O PLC 37/2013 agravará ainda mais essa tendência contraproducente, que vem alimentando o crescimento de organizações criminosas dentro das prisões, a partir do caos penitenciário.
  • Enormes discrepâncias jurídicas entre o que cada juiz considera tráfico de drogas.
  • Encarceramento em massa da população negra e de baixa renda.
  • Impacto no orçamento dos estados, que arcam com os custos do sistema penitenciário.

Ao fim e ao cabo, o PLC 37 é um pacote de medidas anacrônicas que, em sua maior parte, contraria as melhores práticas internacionais e nacionais sobre o tema.

Alguns desses pontos críticos foram parcialmente corrigidos pelo substitutivo aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, em 2014. Aquele texto também introduziu medidas positivas pontuais, a exemplo da possibilidade de importação de derivados e produtos de Cannabis para uso medicinal. Em 2017, o substitutivo proposto pela Senadora Lídice da Mata, então relatora do projeto na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), absorveu as principais mudanças encaminhadas pela CCJ e propôs mais alguns aperfeiçoamentos relevantes ao projeto.

Em 2019, o projeto voltou a ser debatido na CAE e passou a tramitar simultaneamente na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado. O parecer apresentado no dia 23 de abril pelo novo relator do projeto na CAE, Senador Styvenson Valentim, ignora a construção suprapartidária e o processo de escuta plural que resultou na construção desses substitutivos, e mantém todos os retrocessos listados acima. Propõe que o PLC 37/2013 seja aprovado com a exata redação encaminhada pela Câmara dos Deputados, em 2013. Rejeita, assim, as mudanças propostas no texto do projeto pelos substitutivos aprovados na CCJ e na Comissão de Educação (CE) do Senado. Não toma conhecimento, tampouco, do parecer apresentado pela relatora anterior na própria Comissão de Assuntos Econômicos. Diante disso, ao invés de ser votado de maneira açodada, é fundamental o aprofundamento da análise e do diálogo sobre a matéria, para que sejam consideradas, em detalhe, as discrepâncias entre os pareceres.

No último dia 24 de abril, a CAE e a CAS reuniram-se para deliberar sobre o parecer apresentado horas antes pelo Senador Styvenson, impedindo uma análise aprofundada pelos membros das comissões. Tomaram a grave decisão de não realizarem nenhuma audiência pública sobre a temática nesta legislatura, e, diante de pedido de vista coletivo, agendaram para o dia 8 de maio a votação do parecer. Durante a reunião, anunciou-se ainda o risco de que, em sendo aprovado na CAE e CAS, o projeto siga diretamente para o plenário, sem a tramitação prevista na Comissão de Direitos Humanos.

O Senado teve, neste ano, uma das maiores renovações de sua história; mais da metade dos Senadores e Senadoras acaba de iniciar seus mandatos. Realizar audiências públicas sobre o projeto é ainda mais importante diante desse fato, para que a nova composição da Casa tenha a oportunidade de ouvir especialistas e profissionais que atuam com as políticas de drogas em seu cotidiano, bem como organizações da sociedade civil que se mobilizam em torno do tema. Esperamos, das novas e dos novos parlamentares, a oxigenação do Congresso Nacional com práticas mais democráticas, com real abertura à participação social.

Diante de todo o exposto, as entidades abaixo assinadas vêm a público:

  • Reiterar a necessidade de que sejam realizadas audiências públicas sobre o PLC 37/2013 nesta legislatura;
  • Exigir que o projeto tenha a tramitação prevista na Comissão de Direitos Humanos do Senado, garantindo um debate amplo, plural e profundo sobre a matéria;
  • Demandar que os graves problemas apontados no texto sejam sanados, tomando como pontos de partida o parecer aprovado em 2014 pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado e o substitutivo proposto em 2017 pela relatora anterior do projeto na Comissão de Assuntos Econômicos.

Assinam esta nota:

Afoxé Omorisá Odé
Articulação Brasileira de Lésbicas
Associação Brasileira de Estudos Sociais sobre o Uso de Psicoativos – ABESUP
Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos – ABGLT
Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – ABJD
Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO
Associação Brasileira de Saúde Mental – ABRASME
Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas – ABRAMD
Associação dos Moradores do Bairro Canindezinho (CE)
Associação Psicodélica do Brasil – APB
Centro Brasileiro de Estudos em Saúde – CEBES
Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID
Centro de Cidadania e Valorização Humana
Centro de Convivência É de Lei
Centro de Defesa da Criança e do Adolescente do Ceará – CEDECA/CE
Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza – CDVHS
Centro de Estudos de Segurança e Cidadania -CESeC/UCAM
Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da Universidade de Brasília
Coletivo Intercambiantes Brasil
Coletivo Margarida Alves de Assessoria Popular
Coletivo Papo Reto
Comissão de Direitos Humanos da OAB-SP
Conectas Direitos Humanos
Conselho Federal de Psicologia – CFP
Conselho Federal de Serviço Social – CFESS
Conselho Regional de Psicologia – Paraná
Cultive – Associação de Cannabis e Saúde
Fórum Brasileiro de Segurança Pública
Fórum Cearense da Luta Antimanicomial
Fórum Popular de Segurança Pública do Ceará
Frente Nacional Drogas e Direitos Humanos
Grupo Interdisciplinar de Estudo sobre Substâncias Psicoativas – GIESP/UFBA
Inegra – Instituto Negra do Ceará
Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas
Instituto Brasileiro de Ciências Criminais – IBCCRIM
Instituto Igarapé
Instituto Raízes em Movimento
Instituto Sou da Paz
Instituto Terra Trabalho e Cidadania – ITTC
Instituto Terramar
ISER – Instituto de Estudos da Religião
Justiça Global
Laboratório Conflitualidade e Violência – COVIO/UECE
Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ – LADIH
Laboratório de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos – LEIPSI/UNICAMP
Mães do Curió
Maracatu Nação Bom Jardim
Marcha Mundial de Mulheres
Maryjuana – Jornalismo
Movimento Brasileiro da Redução de Danos
Movimento Círculos Populares
Movimento Nacional de População de Rua – MNPR
Movimento Negro Unificado – Ceará
Movimento Policiais Antifascismo
Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança – NEPS/UFPE
Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas de Saúde Mental, do Instituto de Psiquiatria da UFRJ – NUPSAM
Núcleo de Pesquisa e Intervenção nas Políticas sobre Drogas da Universidade Federal de São João del-Rei – NUPID
Núcleo de Saúde Mental, Álcool e outras Drogas da Fiocruz Brasília
Núcleo de Situação Carcerária da Defensoria Pública de São Paulo
Ocupa Preto
Pastoral Carcerária Nacional
Plataforma Brasileira de Política de Drogas
Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes – PROAD/Unifesp
Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos – REDUC
Rede de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável – DLIS
Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas – Reforma
Rede Justiça Criminal
Rede Latino-Americana de Pessoas que Usam Drogas – LANPUD
Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos
Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas – RENFA
Sativoteca
Uneafro Brasil
União Nacional dos Estudantes – UNE
Vozes do Socioeducativo e Prisional do Ceará

SOBRE A PLATAFORMA BRASILEIRA DE POLÍTICA DE DROGAS

A Plataforma Brasileira de Política de Drogas é uma rede para a atuação conjunta de organizações não governamentais, coletivos e especialistas de diversos campos de atuação que busca debater e promover políticas de drogas fundamentadas na garantia dos direitos humanos e na redução dos danos produzidos pelo uso problemático de drogas e pela violência associada à ilegalidade de sua circulação.

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