Louise Ross

Louise Ross é uma das mais experientes e respeitadas defensoras da redução de danos do tabagismo. Com uma vasta e relevante experiência com o vaping em programas de cessação no Reino Unido, Louise veio ao Brasil para compartilhar sua experiência com profissionais da saúde, em um evento na Uerj.

Um dos aspectos mais importantes para nós, neste campo em desenvolvimento de redução de danos, tem sido ouvir as pessoas quando elas nos dizem o que funcionou para elas

Louise Ross esteve rapidamente no Rio de Janeiro no último dia 6 de agosto como painelista no evento “Redução de Danos do Tabaco no Brasil – o papel dos cigarros eletrônicos”, promovido pelo Centro de Apoio à Pesquisa no Complexo de Saúde (Capcs) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

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Louise gerenciou o Serviço Público de Cessação do Tabagismo na cidade de Leicester, Reino Unido, por 14 anos. Foi pioneira em lançar o primeiro serviço público de cessação do tabagismo ecig-friendly da Inglaterra. Aposentada, atualmente atua como consultora freelancer para a Agência Nacional de Treinamento e Cessação do Tabagismo, o NCSCT.

THR NEWS: O que a levou a se interessar pelo tema da cessação do tabagismo?

Louise Ross: Eu tinha acabado de parar de fumar quando vi esse programa ser anunciado, em 2004. Fiquei intrigada ao pensar que poderia fazer isso!

THR NEWS: Você vem de um país privilegiado em relação ao tratamento do tema do tabagismo. Quais os desafios do Reino Unido nos próximos anos?

Louise Ross: Ainda temos inúmeros desafios, como reagir adequadamente à circulação de informação de má qualidade que as pessoas recebem todos os dias (ataques cardíacos, pulmões de pipoca e assim por diante). Infelizmente, parte da mídia está muito interessada em assustar as pessoas que querem tentar o vaping para deixar de fumar.

THR NEWS: As entidades brasileiras normalmente se orgulham de um certo pioneirismo, dos números alcançados e da queda do tabagismo nas últimas décadas. No entanto, talvez estejamos em um ponto de inflexão: com aproximadamente 26 milhões de adultos fumantes, 61% deles desejando alternativas mais seguras para o consumo de nicotina que são proibidos no país, mas encontrados facilmente no mercado ilegal; 75% da população relata desconhecer a existência de produtos de menor risco e dados não atualizados de mortes atribuíveis ao tabagismo -mais de 156 mil pessoas, em 2015. Como você avalia a situação do tabagismo no Brasil?

Louise Ross: Eu posso ver que o Brasil tem muito do que se orgulhar em termos de reduzir as taxas de tabagismo, mas ainda há muito, muito a fazer se as taxas de fumantes forem superiores a cerca de 5%. Muitas vidas poderiam ser salvas se o vaping, bem regulamentado, fosse permitido no país. A boa regulamentação irá melhorar os padrões de dispositivos e líquidos disponíveis ao público e reduzirá o número de menores de 18 anos que os compram.

THR NEWS: É muito fácil encontrar depoimentos de ex-fumantes que apenas conseguiram deixar os cigarros com o vaping, e de forma rápida e fácil. Você que tem uma grande experiência teórica e prática com o tema de cessação do tabagismo, como avalia a afirmação de que os cigarros eletrônicos não são meios eficazes para o abandono do tabagismo? 

Louise Ross: Eu tenho convicção, pela minha experiência clínica e por ter acesso a boas pesquisas, que os cigarros eletrônicos são, definitivamente, uma maneira bem-sucedida de parar de fumar. Uma em cada duas pessoas vai acabar morrendo de doenças associadas ao tabagismo, sejam respiratórias, cardíacas ou câncer. Como os cigarros eletrônicos não têm tabaco, não queimam, não têm fumaça, eles não possuem os componentes tóxicos gerados pela combustão, que são os grandes responsáveis pelas doenças. As pessoas consomem a nicotina, sem os problemas gerados pela combustão do tabaco. Mas algo que precisa ser finalmente entendido é que a nicotina não é um problema, é a substância química menos prejudicial à saúde que existe em um cigarro. O que mata as pessoas é a fumaça. O cigarro eletrônico é sem dúvida uma forma muito mais segura de consumir nicotina. Um bom estudo é o Estudo de Controle Aleatório publicado pelo Prof. Peter Hajek no New England Journal of Medicine, em 2019. Também Thorax / BMJ por Emma Beard “curva em forma de S”.

THR NEWS: No âmbito de um marco regulatório ideal, o Vape deve ser regulado como medicamento ou produto de consumo geral destinado ao público adulto? Ou ainda, deve ser regulamentado junto às Terapias de Reposição de Nicotina existentes, junto ao HnB, tabaco oral ou como um produto completamente distinto – já que não deriva do tabaco?

Louise Ross: Acho que é muito importante disponibilizá-lo no mercado consumidor para que as pessoas possam comprá-lo sem precisar ir ao médico, sem muita burocracia. Não é um medicamento, mas também não é tabaco. Contudo, pode ser que em algumas culturas classificá-lo como um medicamento de fácil acesso pode fazer com que os médicos se sintam mais confortáveis em prescrever e as pessoas com o seu uso.

THR NEWS: Atualmente, após mais de uma década de existência do Vaping como alternativa ao tabagismo, de milhares de estudos científicos, de experiências empíricas de milhares de ex-fumantes, da experiência inglesa, quais os motivos que distintos países tratam o tema de forma tão oposta? Parece que não se está tratando do mesmo tema em algumas regiões do planeta. Como as autoridades sanitárias brasileiras, por exemplo, podem afirmar que não existem estudos suficientes para liberarem esses produtos e que eles podem ser extremamente daninhos à saúde, ao tempo em que não proíbem os cigarros combustíveis tradicionais, sendo que países como a Inglaterra os adota como política pública. E, recentemente, vimos mais um avanço, com a abertura de vapeshops em hospitais de Birmingham. É apenas uma questão ideológica? 

Louise Ross: É uma questão ideológica e política ao mesmo tempo. Também pode ser alimentada pela ignorância e pela falta de lógica. Você tem toda a razão em apontar o absurdo de proibir um produto como o vaping enquanto permite cigarros combustíveis. Muito disso vem do medo da nicotina e, portanto, da falta de conhecimento. Eu sei que muitos médicos ainda acham que a nicotina causa câncer. Isso é completamente falso. Absurdo. Mas esse pensamento ainda existe em muitos lugares.

THR NEWS: Como foi o evento? Foi sua primeira vinda ao Brasil?

Sim, é a primeira vez que venho ao Brasil. Eu falei para profissionais da saúde sobre o significativo sucesso com o vaping que tivemos no programa público de cessação do tabagismo no Reino Unido, como lidamos com os desafios e obstáculos, e os benefícios para a saúde que os ex-fumantes relataram quando mudaram. Fiquei muito satisfeita em poder compartilhar a perspectiva do Reino Unido e saber um pouco como o tema da cessação do tabagismo é tratado no Brasil. Houve claramente muito progresso nessa área, e o país deveria se orgulhar do que alcançou. Eu entendi a relutância de alguns médicos em confiar em novas abordagens de entrega de nicotina, mas espero sinceramente que alguns estejam dispostos a ter a mente aberta aos benefícios de permitir que a nicotina limpa seja usada no Brasil. Alguns médicos me disseram em particular que eles já recomendam vaping para seus pacientes que viajam para o exterior; mas eles ficam realmente preocupados que seus pacientes tenham que comprar produtos importados ilegalmente.

Ao mesmo tempo em que ficamos chocados com a arrogância de alguns críticos e pesquisadores que minam a confiança do público sobre o vaping, ouvimos diariamente o relato de pessoas que queriam desesperadamente parar de fumar, e o vaping funcionou com elas, e é isso que elas querem usar . Se esta revolução deve ser mantida e expandida, as organizações com poder e influência precisam parar de sabotá-la

Vapers são uma realidade: os ecigs realmente funcionam para parar de fumar? Aprendizagem do Stop Smoking Services Reino Unido.”

Video da palestra no THR Summit Spain, promovido pela ANESVAP e MOVE, em 2018.