por Carmen Escrig Llavata

genocídio

Do gr. γένος génos ‘espécie’ y -cidio.m. Extermínio ou eliminação sistemática de um grupo humano por motivos étnicos, religiosos, políticos ou nacionalidade. Usado também em sentido figurado.

A definição acima não é minha. É da Real Academia Espanhola, a autoridade pelas diretrizes linguísticas da língua espanhola. E como bem expressa sua acepção, pode ser utilizada em sentido figurado e, nesse caso, seu significado poderia facilmente ser aplicado ao que vem ocorrendo com milhares de fumantes em todo o mundo. Não se trata de um genocídio ativo, por operação, mas seria perfeitamente possível qualificar como um genocídio por omissão, o que vem ocorrendo, de forma orquestrada, em quase todo o mundo. Um genocídio estimulado por mentiras. Vale observar que essa é minha opinião pessoal, expressa primeiramente em meu blog pessoal e se afasta, por tabém ser um desabafo, do politicamente correto: qualquer um que não quiser continuar lendo, pode clicar naquela pequena cruz no canto superior direito.

Há vários dias convivemos com manchetes aterrorizadoras por toda a imprensa mundial. Não vou entrar em detalhes clínicos, já que certamente todos têm noção do que está realmente ocorrendo. Em minha opinião, pela força das circunstâncias, há algum tempo o que menos posto em meu blog é ciência.

Inalação de ÓLEO de cannabis em vapes procedente do MERCADO NEGRO, sem ter passado por controle de qualidade. Possibilidade teórica de pneumonia lipoídica ou, inclusive ainda mais provável, neumonitis química motivada pela inalação de algum componente tóxico ou pesticida procedente do próprio cultivo, como myclobutanil. Seguramente, nenhuma relação com o mercado regulado dos produtos vape para o consumo de nicotina:

MANCHETES MUNDIAIS: UMA ESTRANHA DOENÇA PULMONAR CAUSADA PELO VAPING AFETA 150 PESSOAS E CAUSA UMA MORTE NOS ESTADOS UNIDOS

É um insulto à inteligência culpar o frasco pelo veneno, a vaca pelo brote de Listeriosis ou o automóvel pelo acidente de tráfego. No entanto, essas manchetes têm uma função e motivação bastante clara: todos sabemos que usar a desinformação como estratégia de controle de uma população não é algo novo. Muitos aprenderam das táticas de propaganda de Goebbels da alemanha nazista.

A desinformação é constantemente usada em todos os conflitos onde há interesses. E neste caso, com o veículo do “Título de Autoridade” e a mídia como uma ferramenta; mídia que se alimenta de seus mecenas e investidores e as manchetes mais sensacionais possíveis que aumentam o número de visualizações.

No entanto, o uso da desinformação, quando se trata de questões de saúde pública, tem ou deveria ter implicações éticas e morais mais profundas para aqueles que a usam e difundem. A questão paira sobre a vida das pessoas. É o juramento de Hipócrates. É, pelo menos no caso de um ser, que se denomina humano, de poder dormir tranquilamente à noite.

No caso específico das ferramentas de redução de danos do tabagismo em geral, seja o tabaco aquecido, os produtos de nicotina sem fumaça e, principalmente, no caso dos cigarros eletrônicos, os níveis de desinformação já atingem um ponto que só pode ser descrito como surreal. E os efeitos de tais manchetes são automáticos. O terror da população ao produto e, portanto, o efeito: os fumantes temem o vaping e continuam a fumar; e, por fim, mais mortes. Milhões de mortes, dor e sofrimento. Por qual motivo? Não é difícil puxar o fio: quem lucra com a morte e a doença? Já existem inúmeros artigos de fontes confiáveis e importantes sobre esse tema circulando nas redes sociais, em diversos idiomas, que você pode ler com qualquer tradutor automático.

Mas quero ressaltar a evolução de alguns eventos desde setembro do ano passado, tanto globalmente quanto na Espanha. Apenas no dia seguinte em que terminamos o THR Summit Spain, que apesar das tentativas de boicote conseguimos realizar com sucesso, acordamos com este belo vídeo -que muitos já viram- e que ilustrou o anúncio da “epidemia de vaping adolescente” nos EUA em apenas alguns dias antes da celebração da COP8 da OMS; que coincidência


Mais uma coisa: esta é a evolução das taxas de tabagismo entre adolescentes desde que a vaping apareceu nos EUA. Sem comentários:

Todos nós também sabemos do declínio histórico na prevalência do tabagismo no Reino Unido desde a promoção dos cigarros eletrônicos, levando seu Ministério da Saúde a anunciar que, usando os produtos de redução de danos em seu plano abrangente de controle do tabaco, o Reino Unido pretendem alcançar o status de país livre de fumo até 2030. Etapas similares estão sendo seguidas por outros países como a Nova Zelândia, o Canadá, a Islândia e a França. Alguns países estão enfrentando bravamente seus próprios problemas nesse sentido. A Euromonitor estima que em 2021 o mercado mundial de vapor chegará a 55 milhões de Euros, com crescimento exponencial.

Entretanto, em todo o mundo ainda se registra 8 milhões de mortes anuais devido ao tabaco … e esse número segue crescendo. Oito milhões contra um surto de 150 pessoas e um morto supostamente por causa do vaping que, como explicamos, não é o caso.

Na Espanha, 52.000 mortes por ano, com taxas de tabagismo semelhantes às anteriores às leis anti-tabagismo.

E por que a desinformação é especialmente intensa agora na Espanha? Porque existem esses movimentos estranhos; a primeira coisa que acontecerá quando chegar um novo governo, no nível das políticas de saúde, será a tentativa da reabertura da lei antifumo para que o atual quadro regulatório dos produtos de redução de danos possa mudar muito para pior. Leis que manterão os fumantes afastados de ferramentas que podem salvar suas vidas. E como podemos denominar isso?

Obviamente, continuaremos tentando combatê-lo com unhas e dentes, apesar de TUDO (este TUDO inclui uma infinidade de variáveis internas e externas ao pequeno mundo do vaping). Embora sejamos sistematicamente silenciados e boicotados por uma causa ou outra, próxima ou distante, o esforço das Associações e de novas entidades, como a Plataforma Médica Espanhola para a Redução de Danos do Tabagismo, que também nasceu graças às Associações, continua; Continuaremos todos jogando David contra Golias.

Apenas uma informação: a Plataforma, apesar de ser composta por médicos, cientistas e professores de prestígio, desde seu nascimento, há apenas cinco meses, foi vetada várias vezes por diversos meios de comunicação em diversas publicações e eventos “científicos”; vários de seus membros até sofreram ameaças por terem aderido ao decálogo. Esse é apenas um pequeno exemplo de sob quais condições temos que trabalhar … mas continuaremos a fazê-lo.

Nós continuamos; médicos, cientistas, instituições que nos apoiam – e que são muitas e cada vez muitas mais, sejam nacionais ou internacionais; parece que a cada dia estamos mais unidos. Embora nos silenciem, já cientes que não temos mãos suficientes, que o dia não tem 48 horas e que não possamos publicar aos quatro ventos o que acontece, o que fazemos e como as coisas estão por trás das barreiras que nos são impostas. 

Aqueles que realmente experimentaram em seu corpo o que é não ter ar para respirar; e quase tentar mordê-lo. Você que sobreviveu, que sentiu sua saúde melhorar. É você quem tem o maior poder e que o conhece. Na frente ou atrás do balcão, aí está você. Continue falando com fumantes, mostre como é possível, negue todo o lixo publicado com argumentos que permitam ao fumante tomar uma decisão com bases informacionais sólidas. Você é imparável e é isso que eles mais temem. Como dizia o provérbio: “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro”. Continue salvando vidas.


Carmen Escrig Llavata é Doutora em Biologia Celular e Genética pela Universidade Autônoma de Madri, coordenadora do MOVE International e fundadora da Plataforma para a Redução de Danos pelo Tabagismo. É generosamente assessora científica de diversas instituições e associações, incluindo ANESVAPE e THR BRASIL.

Imagem destacada: “Big Tobacco, Big Pharma, Politicians, and Vaping!” – https://www.qssv.net/en/latest-news/big-tobacco-big-pharma-politicians-and-vaping/, artigo de Jason Thing 09/12/2018.