Drauzio Varella

Um cigarro eletrônico é um aparelho de funcionamento simples: uma bateria gera uma corrente elétrica que aquece uma resistência com um algodão encaixado que está em contato com o líquido solvente, o qual é vaporizado quando o consumidor aspira gerando uma pressão negativa.

Não há combustão nesse processo. O aerossol resultante é inalado em uma ação que simula a forma de uso de um cigarro convencional (vapor, composto por partículas líquidas, ao contrário da fumaça, por partículas sólidas), mas reduzindo de maneira drástica os efeitos nocivos da fumaça do tabaco. Os líquidos, também denominados e-juices, são compostos por propileno glicol (PG), glicerina vegetal (VG), flavorizante alimentício, água e podem ou não conter nicotina.

Logo, fica evidente que o vape, ou cigarro eletrônico, não pode ser considerado um produto derivado do tabaco. Simplesmente mimetiza o ato de fumar. Tem nada a ver com tabaco e quase nada a ver com o cigarro, a não ser a similaridade do uso (o ato de se levar um objeto à boca para inalar uma substância gasosa). São objetos e processos químicos completamente diferentes. Uma das diferenças mais salientes é que o vape gera um aerossol sem combustão, o que é química e integralmente distinto da fumaça do cigarro (gerado pela combustão da folha do tabaco e do papel que a envolve). Vale agregar ainda que se trata de um dispositivo de eletrônica simples, geralmente bastante barato, que já auxiliou milhares de tabagistas a abandonarem os cigarros.

Introduzido sem equívocos o que é o cigarro eletrônico, declaramos que nos parece absolutamente justa e necessária a preocupação do Dr. Drauzio Varella expressa na sua coluna da Folha (06-01-2019, A estratégia sinistra dos cigarros eletrônicos “) e nos somamos a ele, sem restrições, em relação à urgente necessidade de regulação e normatização dos cigarros eletrônicos no Brasil. Contudo, entre outros aspectos, essa regulação não pode ser pautada como se a Indústria Tabagista fosse a protagonista. Ela está longe de ser.

Os cigarros eletrônicos não são uma estratégia comercial ou de marketing da industria tabagista. É absurdo sustentar essa afirmação simplesmente porque a indústria tabagista não controla esse mercado. Sua participação ainda é pequena, com a fabricação de alguns poucos e impopulares modelos. A gigantesca maioria de dispositivos, equipamentos, líquidos e acessórios são fabricados por centenas de micros, pequenas e médias indústrias emergentes em sua maioria baseadas na China, nos EUA e na União Europeia.

Outro dado incontestável é que a extensa maioria de consumidores é composta por adultos ex-fumantes. Ou seja, são exatamente os ex-consumidores de produtos dessas grandes empresas tabaqueiras. Estima-se que apenas 2% de usuários vaping não são ex-fumantes. Outro dado a ressaltar é que a variedade de dispositivos e sabores é uma demanda desses mesmos consumidores (muitos incrédulos por largarem os cigarros tão facilmente), que acabam por configurar uma subcultura (muitos transformam o hábito em hobbie) e requerem sabores atrativos que facilitam bastante o abandono dos cigarros.

A grande industria denominada Big Tobacco está simplesmente buscando se inserir nesse mercado emergente onde está atuando, até o momento, como figurante, não como protagonista. Obviamente, ao estar assistindo a espetacular ascensão de uma tecnologia disruptiva, de custos produtivos módicos e eletrônica bastante simples, procura rapidamente se inserir nesse novo mercado. O que é razoável e justo. Ela está apenas perseguindo seus interesses, a seus próprios antigos consumidores e prognosticando seu futuro empresarial, porque já sabe que não poderá cativar o mesmo número considerável de clientes que já possuiu, em um futuro, já dominado pelo vaping.

Por esses motivos está buscado entrar no mercado. Não para envenenar nossas crianças. E o poderio econômico que possui, comparado às empresas emergentes desse setor, permite que se apresente como protagonista ao grande -e pouco informado- público. A demanda de consumo por adolescentes e não fumantes de cigarro é sabidamente tão inexpressiva que jamais levaria essas grandes empresas a fazerem tais investimentos. De fato, começaram há pouco a investir em desenvolvimento ou aquisição de produtos, pesquisas de opinião e com seus consumidores -e inclusive patrocinando matérias na imprensa. Esse movimento natural e compreensível se dá justamente pela perda crescente e substancial de seus clientes habituais, que migram a cada minuto para o vaping.

Outra falácia é a de que não há evidências científicas e estudos sérios suficientes que possam comprovar a minimização de riscos do uso dos cigarros eletrônicos em relação ao tabaco. Baseado nessas inúmeras demonstrações, o governo do Reino Unido adotou oficialmente o uso do cigarro eletrônico como componente de sua política antitabaco. Isso pode ser facilmente constatado na página oficial do Ministério da Saúde daquele país. Políticas similares vêm sendo feita pela Nova Zelândia e em muitos outros países. Obviamente cada país tem suas particularidades e deve encontrar os meios de combater o tabagismo, promover a redução de danos e sua saúde pública. Os países que adotam o vaping na redução do tabagismo seguramente não estimulam o uso por adolescentes. Ao contrário. Os protegem. É absolutamente proibido em todo lugar. Aliás, protegem todos os consumidores aplicando normas e controles rígidos que garantam a qualidade desses produtos de consumo.

No entanto, vale a pena sempre repetir que o argumento baseado no senso comum também pode ser vil porque tem a capacidade de se disfarçar de sensatez. E promover a desinformação. Sem dúvida o melhor dos cenários seria optar por não fumar, nem vaporar. Também é melhor não beber álcool, não ingerir alimentos gordurosos ou cheios de açúcares e fazer exercícios regularmente. No entanto, na vida real poucas pessoas atingem esse ideal utópico de saúde perfeita e absoluta ausência de pequenos vícios ou dependências. Geralmente a perfeição, inalcançável, é inimiga da melhor opção, que é realizável.

Acreditamos absolutamente na boa-fé e nas melhores intenções do Dr. Drauzio. Inclusive, afirmamos com ele que é necessário uma regulação urgente desse setor que está marginalizado e corre pelas veias da ilegalidade no nosso país. E que o vaping deve ser proibido a menores de idade e desestimulado a não fumantes. Acreditamos, também, que o Dr. Dráuzio concorda que os resultados mais satisfatórios em saúde pública geralmente acontecem quando conseguimos reduzir os riscos de forma aceitável. Seria fantástico que ninguém fumasse, mas não é realista supor que todos os tabagistas podem, querem ou irão deixar de fumar. É nesse sentido que o cigarro eletrônico, como um produto de menor risco à saúde que imita o hábito de fumar, se transforma numa ferramenta importante para reduzir o consumo de cigarros e evitar a toxicidade da fumaça do tabaco.

Com o respeito e admiração que temos, o convidamos para debater. Enquanto associação de consumidores, e ex-tabagistas, reiteramos a necessidade urgente de um foco na redução dos danos do tabagismo como alternativa pragmática ao ideal preconizado da abstinência. Comprovadamente, os riscos sanitários desses dois produtos não são comparáveis. E se as autoridades não são capazes de estimular a troca do cigarro de combustão pelo cigarro eletrônico, que ofereçam com responsabilidade a permissão dessa alternativa ao público adulto. Dito de outra forma, que promovam políticas públicas baseadas em aspectos científicos, econômicos, éticos, legais e sobretudo realizáveis, pró redução de danos.

Algumas referências:


por Claudio Teixeira – originalmente publicado no blog da ABRAVAPERS
Foto: Mídia NINJA

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