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A Harm Reduction Guide for Parents of Teens Who Vape

por Helen Redmond

O pânico gerado em torno de vapers adolescentes subiu de nível no mês passado, quando o US Surgeon General (o porta-voz no que cerne a saúde pública nos Estados Unidos, indicado pelo próprio presidente). Dr. Jerome Adams, declarou:

“Hoje, estou oficialmente declarando o uso do e-cigarette entre jovens uma epidemia nos Estados Unidos #NoEcigs4Kids (#semEcigsParaCrianças).”

Segundo um relatório da mídia, Adams declarou:

“Nicotina é ‘demasiada e peculiarmente nociva’ para um cérebro em desenvolvimento. A nicotina pode prejudicar o aprendizado e a memória de pessoas abaixo dos 25 anos, ‘engatar o cérebro’ ao vício de outras substâncias e aumentar o risco deles migrarem para o tabaco combustível justo quando o fumo está em recordes de queda”.

O Surgeon General não está fora da curva em sua declaração. Ele vem repetindo pontos citados pelo Comissário do FDA (Food and Drug Administration, similar à ANVISA no Brasil) Scott Gottlieb, quem declarou previamente a existência de uma epidemia entre jovens e até ameaçou remover os e-cigarettes do mercado completamente se o hábito entre os adolescentes não diminuir.

Com essas vozes de autoridade emitindo avisos terríveis – auxiliados e instigados pela mídia – que pais de adolescentes que utilizam do vape não se sentiriam preocupados profundamente?

Mas vamos fazer uma pausa e considerar se esse pânico é racional.

“Há diferença entre experimentar uma substância e utilizá-la forte e frequentemente ao ponto que gere danos sociais, à saúde e à vida”, explica a Drª. Sheila Vakharia*, gerente de políticas do Office of Academic Engagement (Escritório de Engajamento Acadêmico) da Drug Policy Alliance (uma ONG baseada nos Estados Unidos cujo principal objetivo é terminar com a guerra contra as drogas, com suas pautas priorizadas no uso responsável de drogas, promoção da redução de danos e o diálogo aberto entre jovens, pais e educadores sobre a questão).

“Mesmo que devamos manter o olho nas taxas de uso, o mais importante é pensar duas vezes sobre a frequência com que as pessoas utilizam qualquer substância”.

Após analisar o relatório do Monitoring the Future (um estudo criado em 1975 que realiza pesquisas e busca tendências no uso de substâncias ilegais entre adolescentes e adultos nos Estados Unidos, assim como o nível de risco percebido e a desaprovação para cada substância ou droga), Drª. Vakharia resume os dados da maneira abaixo. Note como, apesar do número crescente de adolescentes que utilizaram ao menos uma vez o vape parecer alto (vale observar que todos os números aumentaram desde a pesquisa de 2017), o cenário é outro quando você olha para adolescentes que utilizam do vape mais frequentemente:


Prevalência ao longo da vida:

  • Um a cada estudante da 8° ano experimentou o vape
  • 36.9% dos estudantes do 10° ano (primeiro ano do ensino médio) experimentou o vape
  • 42.5% dos estudantes do 12° ano (terceiro ano do ensino médio) experimentou o vape

Prevalência do ano anterior

  • 17.6% dos estudantes do 8° ano vaporaram no ano anterior
  • 32.3% dos estudantes do 10° ano vaporaram no ano anterior
  • 37.3% dos estudantes do 12° ano vaporaram no ano anterior

Prevalência do mês anterior

  • 10.4% dos estudantes do 8°° ano vaporaram no ano anterior
  • 21.7% dos estudantes do 10° ano vaporaram no ano anterior
  • 26.7% dos estudantes do 12° ano vaporaram no ano anterior

A pesquisa produziu aparente altas porcentagens ao perguntar aos adolescentes se eles utilizaram o vape no mês anterior, no ano anterior, ou alguma vez sequer, mas omitiram a pergunta sobre a frequência de uso, o que poderia ser julgado como a causa de maior preocupação. “Não há dados públicos disponíveis sobre uso diário” comenta Vakharia, “mas é evidente que eles compõem apenas uma pequena fração das pessoas … O que os dados nos dizem é que os adolescentes estão experimentando a nicotina. Não podemos dizer que eles estão utilizando ao ponto de causar problemas nas suas vidas ou de gerar impactos negativos.”


O problema com os recursos de informação existentes para os pais

Infelizmente, nenhum dos materiais sobre nicotina e o uso do vape para adolescentes e pais criados pelo escritório do Surgeon General Know the Risks E-cigarettes & Young People (Conheça os riscos: E-cigarettes & Pessoas Jovens)” – e The Tobacco Prevention Toolkit (Kit de Prevenção do Tabaco), apresenta essa realidade.

A informação nesses materiais é comprometida por:

  • Não distinguir entre uso recreativo/ocasional e uso problemático. “Know the Risks” declara de modo falso que: “não importa como é entregue, a nicotina é viciante e prejudicial para adolescentes e jovens adultos.” Caso isso fosse verdadeiro, por que alguns médicos recomendam o uso de adesivos de nicotina para adolescentes dependentes da nicotina proveniente do vape?
  • Não declarar que vaporar é menos prejudicial/mais seguro do que fumar, uma distinção vital.
  • Utilizar táticas para assustar. “Know the Risks” reforça: “A juventude e os jovens estão peculiarmente expostos a riscos no longo-prazo e efeitos duradouros ao expor seus cérebros em desenvolvimento à nicotina. Esses riscos incluem o vício da nicotina, variações de humor e redução permanente de controle do impulso.” Os vídeos da campanha de prevenção de e-cigarettes entre os jovens do FDA são um caso exato disso. Um deles, intitulado “An epidemic is spreading(Uma epidemia está se espalhando), mostra vermes por baixo da pele, cavando dentro do corpo e do cérebro de adolescentes que vaporam. Na verdade, os casos de estudo de dano ao cérebro se resumem em alguns estudos abertos à interpretação em ratos de laboratório.
  • Fracassam ao providenciar informações compreensivas baseadas na realidade para auxiliar adolescentes a reduzir riscos potenciais associados ao uso da nicotina. Isso faz com que os pais digam aos seus filhos apenas a “dizer não” ao vape – num cenário em que muitos dizem sim.

A verdade sobre a nicotina e o vaping

Neste contexto falho é importante discutir a nicotina calmamente e de modo preciso. Também é necessário apresentar conselhos aos pais da mesma maneira.

A nicotina é vastamente mal compreendida e demonizada por conta de sua associação ao tabaco comburente – há mais de 480,000 mortes relacionadas ao tabaco nos Estados Unidos anualmente.

Ao remover a combustão e isolar a nicotina, trata-se de outra história. A nicotina não causa câncer e não mata seus usuários.

Os efeitos da nicotina no cérebro são transitórios. Não são embriagantes quanto o álcool. A droga possui propriedades sedativas e estimulantes, por isso o frequente uso tanto para ficar alerta quanto para relaxar. Pesquisas mostram que a nicotina aumenta o foco, a atenção e a memória e diminui o apetite e os sintomas de ansiedade e depressão.

A nicotina também é uma droga em que o usuário decide a dosagem; as pessoas cessam o uso ao sentir os efeitos desejados. Se uma pessoa utiliza muita nicotina, são observadas agitação/inquietude e aumento na frequência do batimento cardíaco – muito similar ao se consumir cafeína em excesso.

O representante do Surgeon General aponta riscos à saúde nos compostos químicos e partículas que são inaladas em conjunto à nicotina pelos vapers, apontamentos que soam assustadores (apesar de ainda serem pautas de discussões.

Tais riscos deveriam ser analisados dentro do contexto geral de que o vapor é ainda 95% mais seguro do que fumar, segundo uma publicação do Public Health England (veja uma das publicações aqui). Vale lembrar que todas as drogas, incluindo a cafeína, o acetaminofeno (também conhecido como paracetamol) e outras que nós e os adolescentes utilizamos frequentemente sem pensar duas vezes, carregam alguns riscos – assim como dirigir ou inalar compostos químicos encontrados em móveis. Mas tendemos a enxergar esses riscos, que são menos prováveis de causar uma morte se comparado ao ato de fumar, como razoáveis.

O que fazer e o que não fazer – para os pais

Nesse contexto, aqui está uma lista “faça vs não faça” para os pais, com mais valor prático do que os recursos citados anteriormente.


FAÇA:

1. Fale honestamente sobre os efeitos da nicotina. Reconheça que a nicotina possui efeitos positivos assim como negativos. Se você mentir, omitir ou exagerar, você perderá credibilidade. Adolescentes acreditam que o vaping é mais seguro do que fumar e eles estão corretos!

2. Pergunte ao adolescente o que eles gostam no vaping e escute empaticamente e sem julgamento. Se eles lhes disserem que alivia a depressão ou a ansiedade, é um sinal de que esses sentimentos negativos os quais estão experienciando devem ser endereçados.

3. Permita que o adolescente use o vape em locais acordados em casa. Isso elimina o ato de rebeldia e o aspecto de “fazer escondido”.

4. Converse sobre diminuir o uso do vape para um nível menos nocivo ou cessar o uso se o adolescente está usando o vape de um modo um tanto quanto problemático – i.e., se está afetando negativamente o trabalho ou o desempenho acadêmico, custando muito caro, ou causando desconforto ou outras preocupações.

5. Visite uma loja de vape com o adolescente. Profissionais possuem uma gama de conhecimento sobre vapes e seus produtos e podem oferecer conselhos, caso o adolescente queira continuar com o vape ou não.

6. Encontre um terapeuta que seja apto em psicoterapia de redução de danos e tenha sido treinado em entrevistas motivacionais e fases de mudança, caso veja a necessidade de terapia.

7. Lembre-se de que o tédio é o melhor amigo do uso de drogas. Auxilie no encontro de hobbies e paixões que exijam engajamento – arte, esportes, teatro, música, escrita, dança, voluntarismo, ativismo -, propósito e funções de vida que possam ajudar a prevenir o desenvolvimento de uma relação problemática com qualquer droga.

NÃO FAÇA:

1. Gritar. O adolescente irá parar de te ouvir se você o fizer.

2. Envergonhar o adolescente por usar o vape.

3. Fazer exames toxicológicos. É humilhante e contraprodutivo.

4. Enviar seu filho a um acampamento/retiro de reabilitação estilo “tough love” (“amor bruto”). Muitos desses programas usam o confronto e abusos verbal e físico para forçar a abstinência.

5. Imaginar que o adolescente é incapaz de pensar racionalmente sobre o seu uso da nicotina. Pessoas novas tendem a ser espertas e resilientes. Se motivadas o suficiente, eles podem parar ou reduzir o uso do vape, com ou sem ajuda.

6. Ter medo de estabelecer limites quanto ao uso do vape.

7. Punir ao remover atividades que sejam gratificantes ou que os adolescentes gostem de fazer.

Vendo através do pânico da mídia atual

Como resultado do pânico induzido pelo governo por conta dos JUULs, manchetes sensacionalistas na mídia se assemelham ao pânico ao redor do crack nos anos 90: “O vaping hoje é uma epidemia entre os estudantes do ensino médio nos EUA”; “Escolas e pais lutam contra uma epidemia dos e-cigarettes JUUL”; “JUUL é a nova mania vape dominando os banheiros da escola” e “Eu não consigo parar: escolar sofre com explosão dos vapes”.

Mais e mais estórias são desenhadas para atrair a atenção de pais assustados, como um artigo intitulado “Vaping leva um adolescente à reabilitação: Seus pais culpam a dose pesada de nicotina nos JUULs”, referindo-se a Luka Kinard, de 15 anos, que vendeu suas roupas para comprar refis para seu JUUL. Seus pais o inseriram num programa de tratamento de drogas por 40 dias. O New York Times escreveu um artigo “The price of cool: A Teenager, a Jull and Nicotine Addiction” (O preço de ser descolado: um adolescente, um Juul e o vício da nicotina), que protagoniza Matt Murphy, um rapaz de 17 anos que se tornou tão dependente do Juul que chegou a chamá-lo de seu décimo primeiro dedo.

Estes artigos utilizam palavras com forte carga emocional – tais como “enorme onda”, “pico repentino” e “viciados” – que induzem ao medo e confusão. Todos os problemas das vidas dos adolescentes descritos – seus humores, ansiedades, depressão, querer estar sozinho, notas ruins, dores de cabeça, dificuldade de respirar e até uma convulsão – são atribuídos ao vaping. Muitos dos entrevistados – professores, namoradas, pais, colegas de quarto – fazem declarações sem fundamento e categóricas sobre o vaping e as apresentam como fato.

Mas muitos outros grupos de vapers nunca são mencionados pela mídia mainstream: adolescentes que eram dependentes da nicotina e conseguiram largar o vício por si mesmos sem confrontos com seus pais; adolescentes a quem o vape ajuda a aliviar sintomas de depressão, ansiedade ou DDAH; adolescentes que utilizam o vape ocasionalmente; aqueles que o utilizam apenas em certas situações, como em festas ou antes de um exame; e aqueles que apenas o utilizaram algumas vezes e pararam pois consideraram o Juul não ser algo legal ou descolado.

Onde estão as histórias desses?

Não há um padrão sequer de uso de nicotina entre adolescentes, mas isso não impede da mídia promover uma falsa narrativa de que adolescentes que usam o vape, terminarão como Matt ou Luka.

Como todas as drogas, a continuidade do uso, que pode ir de experimental a uso regular, até ao caótico e fora do controle e outras classificações no meio. Mas a maioria dos adolescentes que utiliza qualquer substância cai na categoria de experimental, ocasional ou social.

Felizmente, nem todos estão comprando essa mensagem de “epidemia de vaping”. Em resposta ao artigo do New York Times, “Como ajudar jovens a largar o vape”, leitores postaram comentários sensíveis, como estes abaixo:

“Estou curioso sobre o possível vício de uma droga que deixa um cérebro mais aguçado, assim como a cafeína, seja tratada com tanto horror. Outros hábitos de adolescentes parecem ter efeitos colaterais muito piores; acidentes de carro por conta de bebida, sociopatologia por conta de mensagens de celular, ficha criminal pelo uso de maconha. Alguns anos atrás, houve uma preocupação pública sobre a exagerada prescrição de drogas como Adderal para adolescentes. Esse frenesi é devido a odiada indústria do tabaco, ao invés dos pais, estar envolvida?”

“Como uma típica mãe preocupada (que agora usa o vape ao invés de fumar), eu tenho que dizer que as coisas que mais me assustam são: #1. tiroteios em escolas, #2. vício em drogas pesadas (opióides, metanfetamína), #3. dirigirem alcoolizados. Estou me esforçando, mas os e-cigarettes simplesmente não competem com esses”.


*Sheila Vakharia é membro do conselho da Influence Foundation que opera a Filter e é uma contribuidora da Filter.

* Os “Faça e não Faça” foram inspirados e em parte pelo material de educação antidrogas desenvolvido pelo Drug Policy Alliance: “Safety First, A Reality-based Approach to Teens and Drugs” por Marsha Rosenbaum, PhD e “Beyond Zero Tolerance, A Reality-based Approach to Drug Education and School Discipline”por Rodney Skager, PhD. Informações da newsletter: “Working with you people who use drug” por Jeannie Little, LCSW do Center for Harm Reduction Therapy também foram incorporados.


Helen Redmond

Helen é editora sênior da Filter. Ela escreve sobre nicotina, saúde mental e políticas de drogas para publicações como Al Jazeera, AlterNet, Harper’s e The Influence. Como LCSW, trabalha com usuários de drogas em ambientes médicos e comunitários de saúde mental. Especialista em redução de danos ao tabaco, ela oferece treinamento e consultoria em saúde mental, uso de nicotina e THR e, em 2016, organizou a primeira Conferência sobre Redução de Danos de Tabaco nos Estados Unidos. Helen também é realizadora de documentários.


Este artigo foi originalmente publicado no dia 14/01/2019 pela Filter, uma revista que abrange o uso de drogas, política de drogas e direitos humanos. Siga a Filter no Facebook e no Twitter. Publicação original aqui. Tradução: Eduardo Se Jin Ju

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