desinformação

Há muitos anos os ataques midiáticos contra o vaping são constantes e com distintas intensidades. Frequentemente vêm em ondas, quase coordenadas. Como o que ocorreu com o tema do famoso Pulmão de Pipoca (Popcorn Lung) há poucos anos, durante os últimos 30 dias tem se massificado a notícia de um repentino surto de doenças pulmonares relacionadas ao uso de cigarros eletrônicos nos Estados Unidos.

Embora as autoridades ainda não tenham divulgado oficialmente o que está por trás desses casos, uma espécie de surto midiático parece ter resolvido a questão. E o diagnóstico de parte da imprensa funciona como uma penalização antecipada. E irresponsável desinformação.

Basta uma rápida pesquisa em qualquer mecanismo de busca para perceber que quase todas as matérias difundidas parecem ter tido a preocupação de já nos titulares apresentarem o tema e a resolução do caso, ou seja, a condenação dos cigarros eletrônicos. Em alguns casos, apenas sugerem, mas na grande maioria tentam abertamente incutir no leitor que o grande culpado por esses vários casos de doenças pulmonares é o vaping.

Pura e não ingênua FAKE NEWS

Em 25 de julho o Milwaukee Journal Sentinel publicou uma nota sobre oito adolescentes que foram internados com distúrbios pulmonares graves no Hospital Infantil de Wisconsin. Os pacientes apresentavam sintomas que incluíam dificuldade respiratória, fadiga, falta de ar, dor no peito e alguns também relataram algum tipo de distúrbio gastrointestinal leve a moderado, como vômitos e diarréia. Desde então, até o último dia 23 de agosto, 193 novos casos similares foram reportados em diversos estados americanos. Nenhum laudo oficial foi emitido até então.

Porém, não tardou nada para parte da imprensa culpar o vaping e viralizar esses casos difundindo informações e a diagnose que, curiosamente, nem as autoridades governamentais e sanitárias pareciam ter conhecimento.

Cartuchos ilegais de THC que circulam no mercado negro dos EUA

Acima, um dos cartuchos de THC comercializados ilegalmente

No entanto, o caso começou a ficar mais claro quando um paciente que estava internado em Wisconsin relatou ter usado o Dank Vapes (leia o artigo Dank Vapes é a ‘maior conspiração’ que pode colocá-lo em coma) pouco antes de começar a passar mal. Outro, de Utah, disse que havia comprado cartuchos de óleo de THC que pareciam ter sido abertos ou estavam mal fechados. O pneumologista do Hospital Universitário de Utah, onde o rapaz está internado, disse que todos os casos até o momento estão provavelmente relacionados ao consumo do óleo de THC em aparelhos vaping. 

Daí, temos pelo menos três questões: primeiro, esse surto nada tem a ver com o vaping que conhecemos, para o consumo de nicotina. O vape é apenas um aparelho, um continente dedicado à entrega de nicotina e para conter produtos específicos que são controlados e licenciados para o consumo (no caso dos EUA, onde estão regulamentados). Então a questão central não seria que essas pessoas estavam usando cigarro eletrônico, mas o quê elas estavam usando em seus aparelhos.

Segundo, aparentemente todos os casos parecem estar relacionados a cartuchos de THC provenientes do mercado ilegal, possivelmente contaminados. Se agregarmos a informação de que com exceção da Califórnia e de Michigan, todos os outros 13 estados americanos que relataram esse problema proíbem a maconha recreacional, tudo realmente começa a ficar mais claro. Não é o vaping e sim produtos de THC ilegais. Também não é razoável pensar que produtos de THC licenciados ocasionassem esse surto.

Terceiro, com esse torrente de notícias, uma outra questão adquire centralidade após esses eventos: o papel da mídia e quem a financia.

O Farmalobby

Um artigo do prestigiado periódico alemão Der Spiegel, na sua edição de n.35 de 24/08/2019, revelou ligações e “maquinações” entre os gigantes da indústria farmacêutica e os adversários do cigarro eletrônico.

Manfred Dworschak, editor de ciência do Der Spiegel, esclareceu em seu denso artigo de três páginas, os elos “parcialmente aterrorizantes” entre a principal associação de controle do tabagismo da alemanha, a Aktionsbündnis Nichtrauchen (ABNR) e a indústria farmacêutica.

Der Spiegel torna evidente as relações entre as gigantes Pfizer, GlaxoSmithKline (GSK), Johnson & Johnson e a Novartis, para citar as maiores produtoras do mercado das Terapias de Reposição de Nicotina e medicamentos para o controle do tabagismo, com organizações dedicadas à saúde pública, associações médicas e de controle do tabagismo.

Segundo o artigo, a ABNR é uma aliança que congrega entidades médicas e organizações privadas dedicadas à saúde pública como a Associação Médica Alemã, a Fundação Alemã do Coração e o Centro Alemão de Pesquisa do Câncer (DKFZ). Manfred explica que embora aparentemente a Aliança não tenha sido fundada pela indústria, como o Comitê Científico para a Cessação do Tabaco, a ABNR surgiu no cenário alemão em 2003, a partir da “Coalizão Contra o Tabagismo”,  justo quando os cigarros eletrônicos começaram a se popularizar. E acrescenta: é evidente que a proximidade com a indústria farmacêutica promove a Aliança a uma espécie de “escritório de campo” da indústria farmacêutica, uma agência dedicada ao lobby permitindo que a Big Pharma possa agir de forma desapercebida como parte interessada.

O vaping vem sendo utlizado há bem mais de uma década como uma tecnologia absolutamente disruptiva na cessação do tabagismo. Com aproximadamente 40 milhões de consumidores em todo o mundo, jamais foi relatado algum caso de morte ou grave enfermidade relacionado ao vaping. Os poucos casos isolados conhecidos indicam apenas o consumo irresponsável.

Nesse sentido, mesmo em um cenário de ilegalidade como o que enfrenta o vaper brasileiro, que apenas favorece o mercado ilegal, sempre é bom alertar para a obrigatoriedade do uso de produtos de qualidade e procedência verificada. Sempre utilize Propilenoglicol e Glicerina vegetal com graus USP e essências especialmente fabricadas para o vaping.

Como representante legal dos consumidores brasileiros, a THR BRASIL não vem medindo esforços para em breve termos um cenário positivo. A desinformação e a má informação deve ser combatida com o compartilhamento de boas informações. E ações: a cada dia é mais necessária a união entre vapers para lutar de forma sinérgica pelos nossos direitos, pela defesa do vaping como uma forma viável ao abandono do tabagismo e por uma sociedade mais justa e democrática: conteste a má informação sempre que possível.

Maquinações contra o cigarro eletrônico
por Manfred Dworschak, Der Spiegel, N ° 35 / 24.8.20019

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