Por Annie Kleykamp

Durante uma recente caminhada fora dos limites da minha quarentena em Baltimore, Maryland, passei por alguém descansando nos degraus de mármore do seu prédio. Quando nossos olhos se encontraram, pude sentir nosso peso compartilhado, confirmado por nossos acenos silenciosos. Uma troca muito comum nos dias de hoje. A mulher acendeu o cigarro, deu uma tragada profunda e exalou. E eu exalei também.

Não gosto muito de fumar, com exceção de um ou dois cigarros por ano. Idealmente ao ar livre, durante o verão. Minha certa aversão a cigarros, ou nicotina, não existe porque durante uma aula do DARE me disseram para não fumar; ou porque tenho uma determinação de aço. Apenas minha ansiedade e minhas tendências me arrastam para vícios com propriedades muito mais sedativas (pense em Cheetos, cerveja e uma erva específica que é legal em alguns lugares). Mas nesta semana, talvez mais do que nunca, eu entendo muito bem a necessidade de um breve momento de esquecimento causado por uma substância que pode me dar uma pausa na vida e rapidamente, mas não permanentemente, aliviar o estresse. Para algumas pessoas isso vem de um cigarro.

E, enquanto eu continuava minha lenta caminhada pela vizinhança, me ocorreu que nossas circunstâncias atuais – uma pandemia global causada por uma doença respiratória altamente contagiosa que está atrapalhando toda a sociedade – trazem dificuldades para se ser um fumante.

Por um lado, parece mais urgente do que nunca proteger a nós mesmos e a nossos pulmões do que está se revelando ser um vírus muito perigoso e que está empurrando nosso sistema de saúde para além de sua capacidade. Esse pensamento levou alguns pesquisadores a escrever um artigo para o British Medical Journal, pedindo que os fumantes considerassem parar de fumar em resposta às possíveis implicações com a COVID-19 – o que é freqüentemente chamado de “momento de aprendizado” pelos especialistas em cessação do tabagismo.

O que falta nas manchetes dos periódicos é a difícil realidade de que muitas pessoas estão buscando um equilíbrio em suas vidas.

Em resposta à cobertura da mídia sobre o tema, a organização britânica Action on Smoking and Health esclareceu que, embora fumar cigarros seja uma decisão arriscada e possa “piorar o impacto do coronavírus”, também é o caso de ser uma decisão acertada os fumantes mudarem para o vaping certos de que isso será melhor para eles do que fumar.

Se você conseguiu olhar para alguma manchete sobre a COVID recentemente (eu estou em um ciclo de 15 minutos hoje em dia), muitas delas dizem que você pode ou não pensar em fumar. Alguns cientistas sugerem que o tabagismo está associado à COVID-19 (mesmo que os dados que estão examinando sejam de baixa qualidade). Enquanto outros, usando os mesmos dados / estudos, sugerem que o fumo pode até ser protetor se você for exposto ao novo coronavírus.

Mais confuso é que esses alertas começaram a se expandir incluindo o vaping de nicotina. Pelo menos um artigo sugeriu que vaporar nos tempos atuais (da COVID-19) poderia ser uma sentença de morte. Outros médicos e cientistas nos lembram que o vaping é menos prejudicial do que fumar e as nuvens de vapores não transmitirão o vírus. Não há, para ser claro, nenhuma evidência de que o vaping torne as pessoas mais vulneráveis. Ainda está se sentindo confuso?

Mas o contexto que está faltando em todas essas manchetes é a realidade de que muitas pessoas que podem ter dificuldades em deixar de fumar ou continuar fumando também estão buscando o equilíbrio em uma nova rotina, durante o isolamento e a distância de amigos e familiares, ou quando são demitidas do trabalho (ou revisam toda a rotina para trabalhar remotamente), quando têm de cuidar de crianças devido a cancelamentos de aulas, quando têm a obrigação de ficarem presas em casa em um relacionamento conturbado e muito mais. Baixo humor, falta de sono e estresse não são os melhores coquetéis emocionais e fisiológicos para produzir uma motivação para abandonar o tabagismo nesse momento.

Você tem outras opções se não quiser parar completamente de fumar

Em defesa dessas fontes da mídia, cientistas e profissionais de saúde lhe dizem para parar de fumar: fumar cigarros é uma das coisas mais prejudiciais que você pode fazer ao seu sistema respiratório. Mas em defesa de uma discussão maior, há muitas outras coisas que fazemos ao nosso corpo que são muito prejudiciais. Beber álcool em grandes quantidades é terrivelmente prejudicial. Pensei em reduzir a bebida em quarentena, mas aqui estou, sem escassez de garrafas de vinho vazias na minha lixeira. Todos nós temos que superar esses tempos da maneira que pudermos.

Você não está sozinho nessa. E você tem outras opções se não quiser parar completamente de beber, fumar ou vaporar ou o que quer que seja que você faça.

Se você está fumando no momento e simplesmente não consegue parar de fumar, tudo bem! Você pode reduzir o quanto fuma diariamente, pode substituir um cigarro por chicletes, iniciar uma terapia de reposição de nicotina ou trocar por produtos vaping de nicotina. Ou você pode simplesmente estar ciente de que está fumando: tente registrar quantos cigarros você consegue diminuir e estabeleça metas para o ajuste. Talvez você chegue a um ponto em que simplesmente decida que não quer mais fumar. Ou talvez você experimente um novo produto vape e acabe percebendo que se sente muito melhor sem tabaco e já não pega um cigarro há uma semana. Ou talvez o melhor que você possa fazer seja apenas tentar todos os dias; dormir, acordar e tentar novamente.

Você também pode conferir esta clínica de tuítes hospedada pela especialista britânica Louise Ross (@grannylouisa) no Twitter com a hashtag #QuitforCovid. Começou em 1º de abril e você pode tuitar suas perguntas sobre fumar, parar, trocar, vaporar ou não fazer nada.

Tente uma variedade de opções e lembre-se de que não existe um modelo único para qualquer mudança de comportamento. Lembre-se que há uma razão para não haver um medicamento aprovado pelas autoridades sanitárias para parar de fumar desde 2006. É difícil, muito difícil. Então vá com calma. Eu tentarei fazer o mesmo.


A Dra. Annie Kleykamp é pesquisadora e professora associada de Anestesiologia e Medicina Perioperatória na Faculdade de Medicina e Odontologia da Universidade de Rochester, além de diretora da ACTTION – Analgesic, Anesthetic, and Addiction Clinical Trial Translations, Innovations, Opportunities, and Networks, uma parceria público-privada com o FDA com o objetivo de acelerar a descoberta e o desenvolvimento de tratamentos para dor e dependência.

Annie é treinada como psicóloga experimental e estudou os efeitos de várias drogas (nicotina, opióides, álcool) na cognição e comportamento humanos. Antes de seu cargo atual, ela trabalhou como cientista na empresa de consultoria em saúde Pinney Associates (2014-2018) e como analista médica na empresa de avaliação de tecnologia em saúde Hayes, Inc (2011-2018). Durante seu período na Pinney Associates, prestou consultoria para produtos de tabaco não combustível para a empresa de cigarros eletrônicos NJOY e a empresa de tabaco Reynolds American Inc. Seu trabalho proibia qualquer consultoria relacionada a cigarros combustíveis tradicionais. Ela também ocupou cargos de professora na Universidade de Maryland College Park, na Academia Naval dos Estados Unidos e na Goucher College.

Filter Magazine
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Imagem destacada: por Helen Redmond